
A Glote, formada por João Autuori em 2021, tem na utilização da microtonalidade não uma herança da música erudita, muito menos uma busca pelo incomum: tal recurso emerge dos restos acústicos dos videogames, dos filmes e dos efeitos sonoros digitais (SFX). O microtom funciona, portanto, como fissura: um intervalo instável entre notas domesticadas.
As letras da banda, atravessadas pelos universos gráficos de Hideo Yamamoto e Junji Ito, não narram identidades prontas, mas subjetividades em decomposição. Para a Glote, o subúrbio é uma superfície fraturada: concreto, calor, paranoia, infância eletrônica e melancolia urbana conectam-se sem hierarquia fixa, como fragmentos reorganizados continuamente numa espécie de (bri)colagem.
A banda não procura ser apenas mais uma representação do colapso; procura, também, habitar suas frestas.
Texto por Yael Carvalho Torres
+ A Glote atualmente tem seu core formado por João Autuori na Guitarra microtonal e Vocal, Pedro Paulino na Bateteria e Arthur Rossignoli no Baixo
← Go Back